Guerra Entre Tráfico e Milícia Fecha Hospital na Zona Oeste

Inaugurado em 1943, com capacidade para 546 leitos, o Hospital Estadual Santa Maria, hoje especializado em tuberculose, vai fechar as portas. O motivo passa longe de razões sanitárias, já que o estado do Rio é o segundo do país com maior incidência da doença – são cerca de 15 mil novos casos ao ano. O desmonte da unidade, que fica na Taquara, Zona Oeste do Rio, acontece por causa da falta de segurança. Desde setembro do ano passado, a guerra entre milícia e tráfico pelo território se acirrou com a prisão do chefe do grupo paramilitar que controlava as comunidades da Teixeiras e Santa Maria. Uma parte desativada do edifício, que é em formato de “H”, já estaria tomada por milicianos.

A Secretaria estadual de Saúde informou que tem programada, dentro de critérios técnicos, a transferência dos pacientes do Santa Maria para o Hospital Estadual Ary Parreiras, em Niterói. Em notam afirmou que “os dez pacientes serão transferidos para uma ala completamente reformada, com melhor qualidade de instalações, de acolhimento e de atendimento já que possui serviço para cirurgia de tórax e broncoscopia”. O cronograma de transferência ainda está em fase de definição.

Os tiroteios frequentes no entorno do hospital, que é cercado por comunidades, levaram profissionais de saúde a pedirem demissão. Nos últimos meses, a situação se acirrou e a falta de médicos, que já havia na unidade, se tornou mais grave. Um dos médicos que deixou a unidade por causa da violência relata que, no mês passado, um paciente foi ferido no braço por estilhaços de uma vidraça quebrada por uma bala perdida.O relacionamento dos profissionais de saúde com a comunidade sempre foi tranquilo. Mas, desde o início do ano passado, quando a milícia local ficou acéfala, o tráfico do morro da comunidade dos Teixeiras entrou em guerra pelo controle da área. Os tiroteios são constantes entre tráfico, milícia e policiais – relata um médico, que não será identificado por questões de segurança

Para chegar e ir embora do hospital, os funcionários cumprem normas de segurança: costumam vestir seus jalecos, para serem mais facilmente identificados, abaixam os vidros dos carros e ligam pisca-alerta.Nos últimos meses, médicos e enfermeiros estão se demitindo em massa. A violência piorou muito no local. Para chegarem e saírem do hospital, eles são obrigados a passar com a janela aberta do carro, pisca-alerta ligado e são cercados por bandidos armados. Tenho colegas que trabalham lá e relatam essa situação. Os tiroteios são constantes – conta a pneumologista Margareth Dalcolmo, que não trabalha no Santa Maria, mas coordena a inclusão de pacientes em um novo tratamento contra a tuberculose no Santa Maria. – Como exigir que chefes de família trabalhem nessas condições? – questiona.

Dalcolmo ressalta que o Santa Maria o único hospital do SUS na cidade do Rio que pode internar casos de tuberculose multi-resistente.No Santa Maria, estamos internando pacientes que estão usando um novo fármaco, chamado debaquilina, destinado a formas extensivamente resistentes de tuberculose que não respondem a tratamentos anteriores, a chamada tuberculose X-DR. São pacientes que precisam de internação prolongada para tratamento com esse fármaco. O que vai ser feito desses pacientes? Para onde vão? São pessoas portadoras de doença contagiosa, transmitida de pessoa a pessoa. Em alguns casos, formas altamente resistentes de tuberculose. Estão colocando em risco as pessoas – adverte a médica.

A Secretaria de Polícia Cilvil informou que vai investigar a denúncia de que parte do prédio do Santa Maria estaria ocupado por bandidos. A Secretaria de Polícia Militar informou apenas que o 18º BPM não foi acionado.

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